31/08/2014

Resenha: a cor do leite

Título: a cor do leite
Autora: Nell Leyshon
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 208
em 1831, uma menina de 15 anos decide escrever a própria história. mary tem a língua afiada, cabelos da cor do leite, tão brancos quanto sua pele, e leva uma vida dura, trabalhando com suas três irmãs na fazenda da família. seu pai é um homem severo, que se importa apenas com o lucro das plantações. contudo, quando é enviada, contra a sua vontade, ao presbitério para cuidar da esposa do pastor, mary comprovará que a vida podia ainda ser pior. sem o direito de tomar as decisões sobre sua vida, mary tem urgência em narrar a verdade sobre sua história, mas o tempo é escasso e tudo que lhe importa é que o leitor saiba os motivos de suas atitudes. a cor do leite apresenta a narrativa desesperada de uma menina ingênua e desesperançosa, mas extremamente perspicaz e prática. escrito em primeira pessoa e todo em letras minúsculas, o texto possui estrutura típica de quem ainda não tem o pleno controle da linguagem. a jovem narradora intercala a história com suas opiniões, considerados por alguns críticos os trechos mais angustiantes da obra.


a cor do leite (sim, minúsculo mesmo, não é erro de digitação) é um desses livros que, por mais que você tente planejar a resenha para que ela dê vazão o significado que o livro tem, nunca vai alcançar esse feito. Quando vi sobre esse lançamento da Bertrand Brasil e li a sinopse que é extremamente instigante, vi que eu tinha que ler naquele momento (sem contar a capa maravilhosa). O livro chegou aqui e no mesmo dia eu o devorei. Mas o livro me surpreendeu de tal forma que eu não sabia como colocar o que eu senti em palavras e, para falar a verdade, desconfio que ainda não sei. Porém TENHO QUE TENTAR, afinal, um livro desses não pode ser menos do que muito recomendado.

Mary (m.a.r.y., como ela se descreve) tem 15 anos e mora com seus pais e suas irmãs em uma fazenda onde é obrigada a trabalhar. Todos os dias ela é obrigada a trabalhar, pois, como não há um herdeiro homem, todas as mulheres devem assumir suas tarefas. A vida de Mary muda drasticamente quando ela é obrigada a trabalhar na casa do pastor da cidade para cuidar de sua mulher. Entre várias coisas, Mary conquista uma das coisas que sempre quis: aprender a ler e a escrever. Só que ela não sabia as consequências que isso traria para a sua vida...

esse é o meu livro e eu estou escrevendo ele com as minhas próprias mãos. nesse ano do senhor de mil oitocentos e trinta e um eu fiz quinze anos e estou sentada perto da minha janela e posso ver muitas coisas. posso ver pássaros e eles enchem o céu com os seus gritos, posso ver as árvores e posso ver as folhas. e cada folha tem veias. e a casca de cada árvore tem fendas. eu não sou muito alta e o meu cabelo é da cor do leite. p. 7
Eu sou uma daquelas pessoas que sempre quer ler algo diferente. Gosto de variar entre os gêneros que leio e, se me derem a oportunidade de conhecer narrativas diferentes, logo fico atraída pela ideia. Foi isso que aconteceu em a cor do leite: quando vi que era uma narrativa toda em letras minúsculas, logo coloquei na lista de desejados (apesar de parecer um motivo bobo), pois eu PRECISAVA saber o motivo disso acontecer dentro da história. E, por mais que eu tentasse adivinhar a razão várias e várias vezes, nunca teria descoberto e foi por seguir este caminho que fechei o livro mais surpreendida do que eu poderia imaginar.

Em a cor do leite temos uma visão inocente de uma situação que já afetou muitas mulheres ao longo do tempo: a submissão. O livro mostra o quanto as mulheres eram feitas praticamente como escravas e estavam sempre à mercê do homem da casa, tendo que renunciar completamente de sua liberdade. A autora Nell Leyshon conseguiu transmitir esse momento histórico de uma forma concisa, direta e sem perder a verossimilhança dos fatos, o que é extraordinário se levado em consideração o limitado número de páginas.

Por causa disso, temos um foco total na história de Mary, sendo ela a única personagem bem trabalhada do enredo. Não que isso seja ruim, afinal, isso fez com que o leitor tivesse oportunidade de sentir toda a angústia da protagonista ao longo das situações pelas quais ela foi obrigada a passar, fez com que desse para sentir a necessidade de mudança dela e isso só ajudou na hora de construir a empatia que é necessária para que o leitor torça pelo personagem até o fim. Porém isso só deixou aquela curiosidade para saber um pouquinho mais sobre os outros personagens, uma vez que eles também estão passando por tal situação. Isso não afeta o contexto do livro, mas vocês entendem, não é?

às vezes é bom ter lembranças porque elas são a história da nossa vida e sem elas não ia ter nada. mas tem vezes que a memória guarda coisas que a gente não quer nunca mais ouvir falar e não importa quanto a gente tenta tirar elas da cabeça. elas voltam. p. 163
Mas, para trabalhar em cima só da protagonista, a autora optou pela narrativa em primeira pessoa e utilizou todos os elementos disponíveis para que ela se adequasse à mensagem que ela queria passar: como a Mary ainda está sendo alfabetizada, percebemos que a construção da narrativa não é muito elaborada, pois são utilizadas palavras simples e frases curtas, além das letras minúsculas ao longo de todo o livro. Isso está totalmente atrelado ao enredo, que mostra aos poucos todos os motivos para que isso aconteça, para que a personagem tenha tanta pressa para dizer tudo o que tem que dizer.

Mas o mais surpreendente é aquele final. Quando terminei o livro, eu não sabia o que dizer. A primeira coisa que eu fiz foi procurar o Italo (pessoa que me indicou fortemente o livro) e dizer que eu não tinha palavras para descrever tudo que eu estava sentindo. É impactante, qualquer pessoa que pegar este livro para ler vai sentir o choque que é aquele final. Em poucas páginas, a autora explicou tudo e é tudo tão genial. a cor do leite é um livro genial, daqueles que deveriam estar na estante de todas as pessoas que apreciam uma verdadeira obra de arte. Altamente recomendado! 

08/08/2014

Resenha: Diário de uma treinadora de pais

Título: Diário de uma treinadora de pais
Autora: Jenny Smith
Editora: Galera Record
Páginas: 288
Katie Sutton é uma treinadora de pais extraordinária. Após anos de experiência, está convencida de que domina a arte de entender e corretamente manejar o seu adulto – no caso, a sua mãe. Tão grandes os seus dotes, que decidiu escrever tudo em um manual, um diário disfarçado de livro de cálculos matemáticos avançados. Mas agora algumas situações inusitadas podem aparecer, e mudar os modos de operação de sua mãe para sempre. Tudo isso devido a um pequeno problema, que tem um péssimo senso de moda e é metido a ecologicamente correto. Depois de tantos anos órfã de pai, parece que as coisas podem dar uma guinada... que bom que Katie é expert em adultos!


Quando soube que a Galera Record iria lançar Diário de uma treinadora de pais, logo fiquei interessada. Parecia ser um daqueles livros bobinhos, ótimos para se ler em uma tarde que você não tem o que fazer e garantir uma ótima diversão para aquele dia. Minhas expectativas de certa forma se cumpriram, afinal, foi uma leitura muito gostosa e fluida, tanto que li o livro em poucas horas. Porém esse teve aquele algo a mais, aquele toque especial que destaca o livro dos outros. Com lições de amizade, família e de autoconhecimento, Diário de uma treinadora de pais me surpreendeu.

Katie é uma garota de 13 anos que se considera a maior especialista do mundo (ainda não reconhecida) em controlar os adultos. Por isso ela resolve escrever um manual para que outros filhos possam conhecer e manusear os seus pais. Ao longo de sua trajetória ao escrever o manual, muitas coisas inesperadas acabam acontecendo: suas amigas arranjam namorados e mesmo a sua mãe está tentando fazer as pazes com o amor. Katie se vê no meio de uma situação em que ela terá que decidir entre fazer o que é certo ou fazer o que ela acha que é bom.

Caso você esteja imaginando quem é o gênio ainda não descoberto que está escrevendo esse manual do usuário, sou eu! Meu nome é Katie Sutton. Tenho 13 anos e talvez, muito possivelmente, eu seja uma das maiores autoridades mundiais sobre comportamento dos Adultos. Por muitos anos, tenho estudado seus estranhos modos e funções – tanto em seu habitat natural quanto em cativeiro. p. 11
Quem nunca quis ter um manual para controlar os pais ou um adulto qualquer, não é mesmo? Mesmo aos 20 anos, em alguns momentos eu gostaria de saber o que outra pessoa está pensando e saber como lidar por determinadas situações. Eis essa a premissa de Diário de uma treinadora de pais e foi por causa disso que ele me chamou a atenção. É claro que, com uma narrativa em primeira pessoa a partir do ponto de vista de uma garota de 13 anos, não vai ser um enredo muito trabalhado e nem vai te levar a ter grandes realizações, mas é exatamente isso que o faz o livro ser o que é: uma delícia de ser lido.

Isso se deve totalmente aos personagens. Katie é uma menina até um pouco mais madura para a idade dela do que parece, afinal, quem conseguiria com 13 anos ter ideias claras a respeito de sua vida quando ela está uma confusão total? Foi exatamente por isso que eu me identifiquei com ela: apesar de tudo está de ponta cabeça, ela não chega a fazer coisas burras. É claro que algumas atitudes dela são impulsivas e talvez bobinhas demais por causa da idade, mas nada que chegue a irritar o leitor. Além disso, os personagens secundários são fantásticos e dentre eles preciso citar os irmãos de Katie: Jack e Mandy. O primeiro é responsável pelas partes divertidas do livro, enquanto a segunda tem os melhores planos!

Os dois trazem o aspecto familiar para o livro: são três irmãos tentando superar a perda do pai enquanto a mãe tenta encontrar um novo amor. A autora aborda a situação pelo ponto de vista desses três, o que foi uma das partes que eu mais gostei no livro, porque não é algo pesado e isso faz com que haja uma evolução de personalidade nos três. Também os aspectos relacionados a amizade e em como o respeito pela decisão do outro é importante em decisões assim. É muito legal ver que um autor aborda esses temas com tamanha naturalidade e os insira no enredo de modo que não fique algo clichê ou forçado.

Eu tive que usar essa frase: “Conhecendo o seu Adulto.”. Muitos guias a usam: “Conhecendo a sua secadora de roupas” ou “Conhecendo o seu cortador de grama”, mas o que os fabricantes esperam? Que você troque experiências de vida com sua torradeira e depois a convide para sair? Não é uma má ideia na verdade – no fim do encontro, você terá a garantia de uma deliciosa fatia de torrada com manteiga. p. 20
Mas, vamos logo aos alertas: se você não encarar esse livro como uma leitura feita para um público alvo específico, talvez ela seja uma decepção. Ou seja, se você tem mais de 20 anos, não adianta ler o livro achando que vai encontrar algo super elaborado: é preciso lê-lo despretensiosamente, assim como livro pede para que o leitor seja. O fato é que o livro segue o caminho planejado. É aquela história que você já viu mil vezes por aí, mas eles continuam a aparecer e o melhor: continuam a agradar. É exatamente assim que Diário de uma treinadora de pais é.

A grande verdade é que, apesar de não ser um enredo totalmente original, Diário de uma treinadora de pais é um daqueles livros que vão te conquistar se você der uma chance para ele, uma vez que ele cumpre com a premissa de ser totalmente despretensioso. É altamente recomendado se você está passando por aquela temida ressaca literária, já que o humor toma conta da história e a leitura flui tão facilmente que parece que as páginas voam. Embarque nessa aventura e conheça a história de Katie. Vale a pena! 

06/08/2014

Resenha: O Peculiar

Título: O Peculiar
Autor: Stefan Bachmann
Editora: Galera Record
Páginas: 272
Parte romance gótico, parte mistério e aventura steampunk. Após a invasão do mundo pelos seres mágicos, as fadas foram aceitas entre os mortais, mas os mestiços não têm lugar. Os irmãos Barthy e Hettie vivem com medo. Tudo piora quando Peculiares são encontrados, ocos, boiando no Tâmisa. Mas eles estão seguros em Bath, não? Talvez... Se não fosse pela misteriosa dama em veludo ameixa que aparece na vizinhança. Quem é ela? E o que quer?




O Peculiar é aquele livro que provavelmente você vai ver a capa em algum lugar e com certeza ela vai te chamar a atenção. As chances de você pegá-lo e ler a sinopse são altíssimas. Foi o que aconteceu comigo: assim que vi esse livro entre os lançamentos da Galera Record, fui atrás de mais informações e eis que me deparo com o seguinte fato: era um steampunk* com uma dose de fantasia. Como eu nunca tinha lido nada do gênero, resolvi me aventurar nessa novidade. Confesso que não foi uma leitura fácil, porém algumas características fizeram com que o livro fosse bem interessante.

Depois de várias guerras que assolaram o país, as cidades da Inglaterra agora convivem com a presença das fadas. Através disto, surgiram os peculiares, que são a junção de seres sobrenaturais com os humanos. Bartholomew é um deles e vive com medo de ser notado e morto por ser o que é, ainda mais com a onda de desaparecimentos que está acontecendo. O que ele não esperava era se deparar com uma mulher muito misteriosa que poderá colocar a sua vida e a de sua família em risco. Juntamente com o Sr. Jelliby, um homem que foi arrastado para o meio dessa confusão, eles terão que descobrir tudo o que está acontecendo e impedir que mais mortes aconteçam.

Bartholomew encarou a mãe. Ela retribuiu o olhar. Depois ele se virou e saiu para o corredor, batendo a porta com força. Ele a ouviu chama-lo, mas não parou. Não seja notado e não será enforcado. Seus pés descalços percorriam o piso silenciosamente enquanto ele subia depressa pela escada, mas o que ele desejava mesmo era poder berrar e espernear. Ele queria uma fada. Mais do que qualquer coisa. p. 21
Não tinha grandes expectativas em relação a O Peculiar. Há tempos queria ler um steampunk, mas nunca encontrava um que me atraísse. Já havia feito uma tentativa com Alma?, mas como a leitura não fluiu, acabei optando por abandonar este. Como O Peculiar tinha esse aspecto de fantasia (um gênero que eu já sou familiarizada e tive poucas decepções ao longo do tempo), resolvi arriscar. Porém no começo da leitura ele seguiu pelo mesmo caminho que eu já conhecia: uma narrativa densa, um enredo confuso e parecia que não tinha um rumo definido, que o autor estava jogando informações sem nenhum objetivo. Por vezes cheguei a imaginar que eu não estava enxergando algum aspecto importante, visto que o livro demorou páginas e mais páginas para enfim se desenvolver.

Vocês já podem imaginar o quão lento esse aspecto deixou o livro, correto? Para ser totalmente sincera, tive que forçar um pouco a leitura para o enredo me envolver e finalmente engrenar. Isso aconteceu porque o autor colocou muitos fatores dentro de um só enredo: além de ter que ambientar o livro dentro das características do steampunk, ele teve também que desenvolver o lado da fantasia, então ficou algo muito pesado e isso fez com que o livro perdesse muito em dinamicidade e fluidez. Nesse caso, faltou uma lapidação do enredo por parte do autor para que esses pequenos problemas fossem resolvidos.

Mas, pelo lado positivo, ele conseguiu criar personagens interessantes. Apesar de ser uma narrativa em terceira pessoa, conhecemos bem os nossos dois protagonistas. Bartholomew, o peculiar, me trouxe diversos questionamentos e espero muito que ele seja melhor desenvolvido no próximo volume da série, pois ele ainda pode acrescentar muito para o enredo. O Sr. Jelliby caiu de paraquedas no meio de toda a situação, porém é um elemento que não poderia faltar, já que ele traz o fator humano para o enredo. Ainda quero ver muito mais desses dois personagens e sobre todo o mistério que cerca os peculiares.

O Sr. Jelliby não era o tipo de homem que tomava decisões precipitadas. Na verdade, não era o tipo de homem que tomava decisão alguma. Mas quando o olho mecânico do mordomo-fada sibilou e focou no pássaro na mão do Sr. Jelliby, e quando a fada sorriu daquele jeito estranho e disse: “Ah! Que bom vê-lo por aqui”, como se fossem velhos amigos, o Sr. Jelliby tomou uma decisão rápida e impulsiva. Ele correu. p. 146
Não posso negar que fiquei muito feliz de mais uma vez me deparar com um enredo que colocava as fadas como seres fantásticos principais. Há muito tempo não lia algo relacionado ao tema e fiquei animada em como o autor as colocou dentro do enredo: aqui não seguimos aquele estereótipo de fadas boas e que sempre nos trazem boas notícias – na história de Stefan Bachmann elas podem ser muito ruins, a ponto de querer destruir todos os humanos para conseguir o que querem. É nessa premissa que o livro se baseia, então não me estenderei muito para não entregar o ouro.

O Peculiar tinha tudo para ser um livro fantástico, mas pecou em algo importantíssimo: dinamicidade do enredo. Isso tornou o livro denso e cansativo, algo que não é compatível com o público alvo dele (jovens em geral), então esse pode ser o motivo de decepção para muitos que esperam algo mais leve. O final abrupto do livro também é outra coisa que pode levar a isso, pois, quando o livro finalmente chegou ao clímax, ele acabou e deixou tudo para o próximo volume. Não sei se essa foi a melhor alternativa depois de um livro denso, mas... Apesar desses fatores que levaram o livro a estagnar no nível de “bom”, a mitologia que o cerca fez valer a pena e é por causa dela que estou curiosa para o próximo volume (The Whatnot, ainda sem tradução). Espero não me decepcionar.


*steampunk: Nas histórias do steampunk, a tecnologia a vapor (steam, em inglês) se desenvolve mais do que todas as outras e sendo o grande invento do homem, enquanto a eletricidade fica em segundo plano. Junte isso com um excesso de aparelhos mecanizados e está criado o cenário para essas aventuras. (fonte: Tecmundo)

02/08/2014

Promoção: 3 anos do De Livro em Livro

Olá pessoal! :) Este mês de agosto é muito importante para o De Livro em Livro, pois é o mês em que o blog completa 3 anos e este é um marco importante na trajetória do blog. Por isso, o DLL junto os  blogs amigos Cachola Literária, Only The Strong Survive, Over Shock, Mundo da Noite, Sir James Matthew, Livros e Chocolate e Este Já Li estarão realizando uma promoção em comemoração aos 3 anos do blog.